Já imaginou realizar o sonho de voar de caça nos Estados Unidos sem ser da Força Aérea Militar? Saiba tudo sobre essa inigualável experiência e como você também pode embarcar nessa!

Você já viu o horizonte de ponta cabeça?” – perguntou sorrindo o Steve, piloto responsável pela melhora experiência de toda minha vida, assim que me viu chegando ao seu hangar.

Quando eu era criança, uma vez ouvi que só era feliz quem nunca desistia de sonhar. Talvez felicidade seja o encontro de um sonho com a realidade, não sei, mas sei que esta experiência trouxe algo bem inédito na minha vida: a realização de um sonho que eu sequer sabia que existia dentro de mim.

voo de caça eua Foto: Patricia Schussel

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Eu não vou fingir que entendo bolufas de aviação ou que voar de caça era meu sonho desde criança porque eu estaria mentindo, mas me sinto extremamente grata por ter vivenciado o grande sonho de tanta gente. Uma das primeiras perguntas que o Steve me fez ao chegar ao Hangar #50 do Chino Airport nas proximidades de Los Angeles foi o que me trouxe até ali, portanto, vamos ao início da história toda:

Há quase um ano atrás participei de uma promoção da loja de artigos esportivos Authentic Feet onde eu tinha que fazer uma série de desafios envolvendo fotos e vídeos divertidos para concorrer ao prêmio que seria voar de caça nos Estados Unidos. Eu participei, fui selecionada e quase um ano depois, lá fui eu voar de caça sem entender absolutamente nada de aviação, só pela diversão, pela aventura, pelo prazer de fazer algo que eu não sabia o que esperar, pelas borboletas na barriga voando loucamente, pelas bochechas doendo de felicidade e por aquele sentimento que vem depois e que é difícil colocar em palavras.

Bom… acho que é realmente impossível tentar descrever, já que palavras jamais fariam jus ao sentimento de poder ver o mundo de ponta cabeça, poder sentir seu corpo todo contra a gravidade e levar a liberdade pra outro patamar. Este voo foi muito mais do que uma simples aventura, foi ser tomada por uma emoção enorme ao perceber que o universo é infinito e vai muito além do que conseguimos imaginar.

voo de caça eua Foto: Patricia Schussel

Ao chegar ao hangar onde estava estacionado o caça, fiquei quase 2 horas conversando e recebendo instruções do Steve, piloto e dono da aeronave da União Soviétiva L-39 Albatros. Antes de embarcar, ele explicou nos mínimos detalhes com toda paciência do mundo sobre tudo que iria ou poderia acontecer, e é justamente por entrar nos mínimos detalhes que muita gente cogita desistir durante essa conversa, até os veteranos de aviação.

É incrível, não é?! Mas como eu não gosto de mostrar só a parte boa da coisa, também vou contar um pouco dos efeitos colaterais dessa aventura toda… ou você achou que era só maravilhas?
Eu sei que parece muito simples pelas fotos, mas foi preciso coragem sim – e muita!!! Confesso que nunca senti nada parecido em toda minha vida e é uma mistura de sensações realmente impossível de explicar, mas eu fui… fui e não tirei o sorriso do rosto nem quando o piloto estava me dando as instruções sobre meu paraquedas e como usar a válvula de emergências pra abrir minha cabine e ejetar meu assento sozinha, caso algo errado acontecesse. [ok, exceto por essa foto abaixo que eu não estava exatamente sorrindo… haha]

voo de caça eua Foto: Patricia Schussel

Ainda bem que não precisei usar a tal da válvula, mas usei um saquinho pra outro tipo de emergência, se é que você me entende… Pois é! Se até o Ayrton Senna tremeu na base ao voar de caça com a FAB, imagine eu que enjoo no banco traseiro do carro?! Mas eu aguentei todas as manobras e toda força-g sob meu corpo sem desmaiar e me mantive curtindo até quando eu estava passando mal e meu estômago tinha tomado conta da situação.

Se você está se perguntando que diabos é força-g e o que isso significa pro nosso corpo, não se preocupe porque nem eu sabia muito sobre isso antes de voar em um dos brinquedinhos do Seu Steve – essa foi a hora em que me arrependi de ter matado aquelas aulas de Física no colégio, mas talvez se eu soubesse mais detalhes, teria ficado ainda mais tensa antes do voo.

A chamada “força-g” é o nome dado à unidade de aceleração devida à gravidade na Terra. Quando se alcança uma força-g muito alta, a vibração e a ressonância dos tecidos dos organismos chegam a tal nível que certos órgãos podem chegar ao ponto extremo de “explodir”, causando morte imediata. Claro que não estou falando dessa força toda aqui e nem teria nenhum risco disso acontecer, afinal, o corpo humano é apto a uma certa tolerância de força-g e é através dessa tolerância que os pilotos de caça amam testar seus limites.

Cada manobra tem uma aceleração diferente e quanto mais perto do limite da tolerância-g, as chances da pessoa apresentar problemas cardiovasculares aumentam drasticamente. O corpo humano é flexível e deformável, mas a força-g causa uma variação significativa na pressão sanguínea ao longo do corpo e isso só é tolerável até um certo limite. Uma pessoa normal aguenta uma aceleração de pouco mais de 5 g sem desmaios ou perda da consciência, dependendo de cada indivíduo. Pilotos como o Steve, e ainda mais os pilotos de caças supersônicos, são capazes de aguentar uma aceleração de até 9 g por um período de tempo muito maior que o de uma reles “pessoa normal” como eu.

Eu imagino que você não esteja interessado em uma aula de física aqui e eu nem saberia me aprofundar mais no assunto, mas toda essa experiência de voar de caça gira em torno da tal da força-g e por isso é indispensável entrar nestes detalhes. O que percebi conversando com o Steve é que isso acaba virando um motivo de orgulho entre os pilotos, como uma espécie de competição em que é melhor quem tolera mais força-g. Chega a ser engraçado e o Steve repetia toda hora na maior empolgação: “WE LOVE G-FORCE!” – eu já não posso dizer o mesmo! hehe

voo de caça eua Foto: Patricia Schussel

É bem difícil explicar a sensação, mas basicamente seu corpo fica extremamente pesado ocorrendo o enrijecimento dos músculos devido a força que o sangue exerce na volta do cérebro. De forma mais imaginável, é como se uma espécie de ímã pressionasse seu corpo contra o assento, e é nessa hora que uma série de pequenos desmaios de no máximo 5 segundos pode acontecer involuntariamente. Você já deve ter visto algo parecido em alguns vídeos virais de internet em que a pessoa desmaia no meio da montanha-russa, lembra?! É exatamente a mesma coisa, exceto pelo fato de que aqui não tem um baita trilho de ferro segurando o carrinho. Veja abaixo o vídeo para ter uma ideia:

Fizemos diversas manobras elevando a força-g gradativamente para que eu me acostumasse e pudesse decidir se queria continuar ou não – é claro que nem pensei duas vezes e quis continuar mesmo passando muito mal com o quase insignificante café da manhã que eu ingeri várias horas antes do voo. Apesar dos movimentos das manobras parecerem relativamente “sutis” pra quem está dentro, como se a nave flutuasse lentamente dando cambalhotas no ar, é bem previsível que seu estômago venha parar na garganta e você sinta uma náusea muito forte, como eu senti.

Nosso limite de aceleração foi 5,5g, uma força bem alta que a maioria das pessoas perde a consciência, mas ainda bem que resisti firme e forte, afinal, eu iria ficar no mínimo decepcionada se perdesse o melhor da festa. A aeronave que eu voei, o jato L-39 Albatros, não alcança a velocidade do som (não são todos os caças que alcançam) e, segundo o piloto, isso não faz nenhuma diferença para quem está dentro do avião, uma vez que a barreira do som fica pra trás e quem está dentro não vê ou escuta nada. Além disso, a cabine do L-39 Albatros é pressurizada, por isso não precisei usar máscara de oxigênio e pude curtir com mais liberdade a experiência toda.

voo de caça eua Foto: Patricia Schussel

Sobre o piloto

Com 20 anos de experiência como mecânico de A&P e engenheiro aeronáutico, a especialidade do Steve é com jatos russos e da Europa Oriental, e ele é considerado por muitos como o melhor no negócio.
O nome completo dele é Steve Kalmar, apelidado carinhosamente pelos seus ex-colegas de “Rocket Man” e é fácil entender o motivo. Um piloto que combina conhecimento e experiência de quatro pessoas em uma só: ele é um ex-piloto militar da Força Aérea Húngara, instrutor de aviões de combate, piloto de testes, mecânico A&P e engenheiro aeronáutico que restaurou o jato que eu voei sozinho com as próprias mãos.

Como adquirir o voo

Voar de caça não é nada barato, mas é possível para qualquer pessoa que esteja disposto a pagar pela aventura. A agência responsável por organizar meu voo foi a MiG Flug e o voo através desta agência custa US$3.100, podendo ser pago com cartão de crédito ou depósito em conta.
Como as transações no exterior não podem ser parceladas, da forma que estamos acostumados aqui no Brasil, a dica pra quem não quer se apertar é fazer o pagamento e entrar em contato com a bandeira do seu cartão de crédito (visa, mastercard, etc.) solicitando que o valor seja parcelado. É indispensável fazer isso logo após o pagamento, antes que sua fatura mensal feche, mas é importante consultar previamente os juros cobrados por cada parcela, que normalmente são bastante altos. Mesmo saindo muito mais caro do que pagar à vista, essa pode ser uma ótima opção para quem sonha em voar de caça mas não pode abusar tanto no orçamento.

Acho que quem ainda não sonhava em voar de caça, acabou de colocar na listinha de desejos, não é?!

Conte aqui pra nós algum outro grande sonho seu!