Por Tales Azzi:

“Foi preciso atravessar o Brasil, rumo ao extremo norte do país, na tríplice fronteira com a Venezuela e a Guiana. O objetivo: subir ao Monte Roraima.

Não queria encontrar nenhum diamante rosa igual ao do Comendador da novela, apenas estava louco para conhecer algumas das paisagens mais originais e impressionantes do Brasil.  A montanha tem um inusitado formato de mesa. Ergue-se verticalmente, com seus paredões de arenito de cerca de mil metros de altura, cujo topo achatado, um platô de pedra, abriga um ambiente totalmente diferente de tudo que existe, com diversas espécies de plantas e anfíbios endêmicos.

Os indígenas venezuelanos chamam essa formação geológica de tepuy. Há uma centena de tepuys no Parque Nacional Canaima, na Venezuela, o Monte Roraima é o único do lado brasileiro da fronteira e que permite sua ascensão sem necessidade de escalada por cordas. Tornou um dos destinos mais desejados por trekkers brasileiros, que vão até lá atraídos por sua aura de misticismo, e pela paisagem exótica, desenhada por jardins endêmicos, cachoeiras, abismos e rochas de formatos bem curiosos.

jardim endêmico monte roraima

jardim endêmico

No voo, a caminho para Boa Vista, capital de Roraima, não saiam da minha cabeça as histórias que li, dias antes, em “O Mundo Perdido”, do escritor Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes. No livro, cuja história se desenrola no Monte Roraima, o topo da montanha é habitado por dinossauros e seres fantásticos. Logo eu descobriria que não, não existem dinossauros por lá, mas que a Monte Roraima é sim um grande devaneio. E as palavras de Lorde Roxton, um dos personagens do livro, ecoavam como um mantra na minha mente: “Vamos à aventura, meu caro jovem! Que os espaços abertos e as terras misteriosas nos permitam a alegria da descoberta”.
Três horas após decolar de Brasília (conexão obrigatória para quem vem de São Paulo) o avião aproximou-se de Boa Vista, furando nuvens de que pareciam de algodão.

Eu imaginava encontrar uma cidade fincada na Floresta Amazônica, mas o que vi da janelinha do avião era uma cenário árido, um grande deserto a perder de vista, onde estava fincada a capital do estado de Roraima.

Logo no desembarque já senti o bafo quente. Boa Vista parece uma sauna seca. Fui direto ao escritório da agência Roraima Adventures, com a qual eu faria minha expedição. A empresa oferece seis diferentes roteiros de trekking para explorar o Monte Roraima, com preços que variam entre R$1900 e R$3100, e outros três com chegada ao topo em helicóptero, que são bem mais caros, a partir de US$ 2 mil.

O roteiro do Lago Gladys, que eu estava prestes a encarar, tem sete noites de duração, sendo quatro deles no topo da montanha. Seriam 120km no total, o que dá uma média de 14km ao dia. Todos os pacotes incluem o transfer desde Boa Vista até Paraitepuy, já na Venezuela, onde começa a caminhada, além de guias, carregadores para levar todo o equipamento de camping e as refeições.

A barraca é para duas pessoas, mas quem quiser, pode solicitar uma barraca individual, pagando um extra por isso (R$250). É uma boa para ter mais espaço e privacidade. Cada um leva consigo sua própria bagagem: roupas, saco de dormir e isolante térmico (para forrar o chão da barraca, acessório fundamental para as noites frias na montanha). A agência aluga isolante e o saco de dormir, por R$ 80 cada.

A Ana, uma das guias, recomendou-me levar, no máximo, 12 kg, para que o peso não se torne incômodo demais durante o trekking. Existe a possibilidade de contratar carregador para levar a bagagem pessoal, o que é altamente recomendável. Há um acréscimo de R$ 70 ao dia, mas vale a pena o investimento. A trilha é dura, por conta das subidas e dos trechos com pedras, e com peso nas costas fica bem mais difícil.

carregadores monte roraima

Carregadores do Monte Roraima

Eu não tinha intenção de contratar carregador (me arrependeria depois). Por isso, o peso da mochila foi uma grande preocupação. Além das roupas eu teria que levar o equipamento fotográfico, que incluía uma Canon 5D, duas objetivas e um tripé robusto, que me acrescentavam quase cinco quilos extra.

Além disso, a lista de equipamento que a Roraima Adventures recomenda levar, enviado previamente por e-mail, não é pequena: jaqueta, casacos, roupas impermeáveis, bota de goretex, papetes, segunda pele (roupa térmica usada por baixo), capa de chuva… Tudo isso porque, no topo da montanha, as noites são geladas, a temperatura chega a cair próximo a zero grau, e a chuva quase sempre aparece.

Com minha bagagem perto do limite dos 12kg sugerido, parti com o grupo de Boa Vista às 5h da manhã, rumo a Santa Elena de Uairén, na Venezuela, a três horas de viagem. Ali, tomamos o café da manhã enquanto os carregadores transferiram nossas bagagens para Toyotas 4×4, antes de partirmos a Paraitepuy, mais uma hora de viagem, ponto de início da trilha. Éramos, no total, 32 pessoas, 16 turistas e 16 integrantes da equipe de apoio.

arrumando as malas em paraitepuy

arrumando as malas em paraitepuy

Partimos ao meio dia, sob sol forte, por uma trilha aberta e plana. Quatro horas depois, após 15km percorridos sem sobressaltos e com tranquilidade, chegamos ao primeiro acampamento. Os guias montaram as barracas rápido e o pessoal seguiu para o banho de rio.

Todos os acampamentos do trekking no Monte Roraima são selvagens. Não há luz elétrica, nem chuveiro quente. O banho é de rio mesmo. E o banheiro improvisado em um barraca cujo interior tem apenas um banquinho de plástico com o assento cortado, no qual cada usuário pendura um saco plástico para fazer a necessidade básica internacionalmente conhecida como “número dois”. Os guias orientam a usar o banheiro: jogar uma pá de cal dentro do saquinho ao final do “serviço”, para desidratar os dejetos, dar um nó e colocar ao lado da barraca, para ser recolhido. No começo, é um pouco estranho, mas o método, embora rudimentar, funciona bem.

carregadores monte roraima

Carregadores – Podemos ver o “banheiro” no alto das bagagens

Após o jantar, às oito da noite, todos já estavam recolhidos para dormir. Tive uma primeira noite péssima. Não tinha isolante térmico e o saco de dormir era pouco acolchoado. Praticamente deitei no chão duro. Ainda coloquei a jaqueta embaixo para forrar um pouco mais, mas pouco melhorou. De manhã, estava com o corpo ainda mais cansado.

jantar monte roraima

jantar monte roraima

O despreparo (meu caso) é o maior erro que o viajante pode cometer por quem pretende escalar o Roraima. Talvez por falta de pesquisa prévia, ou por perder o briefing, a palestra que a Roraima Adventures faz com os turistas um dia antes da saída do trekking. Outras vezes, é a falta de preparo físico adequado, porque não se trata de um passeio contemplativo qualquer. Subir ao Monte Roraima é uma expedição digna de montanhistas, com carregadores e camping selvagem mas não chega a ser tão radical quanto outras montanhas célebres da América do Sul, como o Aconcágua, por exemplo. O Monte Roraima não exige cordas e seus 2.800 metros não chega a provocar o “mau de altura” mas requer um bom par de pernas a quem se dispuser a encará-lo e o mínimo de equipamento adequado.

Eu, confesso, estava no mais total despreparo. Não tinha sequer saco de lixo (para enrolar as roupas na mochila e evitar molhá-las em caso de chuva), tampouco roupas impermeáveis, remédios básicos, chinelo e capa de chuva apropriada (de lona). Minha roupa de frio limitava-se a uma jaqueta e duas calças, que de forma alguma podia usá-las durante o dia, para não molhá-las com alguma chuva inesperada. Francisco alertou-me: “Não deixe molhar o saco de dormir. Protege-o como a sua vida”. Ele sabia que se o saco de dormir molhasse eu teria noites ainda mais desconfortáveis na montanha.

trilha monte roraima
O maior de todos os problemas era a falta do isolante térmico para dormir. Após a primeira noite pressenti sérios problemas, se não conseguisse um deles teria que abortar a viagem, pois o frio noturno seria insuportável no alto da montanha. Por sorte, no dia seguinte, meia hora após deixarmos o acampamento, às 6h da manhã, cruzei com um garoto de fisionomia indígena e perguntei se ele me alugaria o isolante. O garoto era amigo do Francisco, nosso guia, e topou alugar o acessório por meros R$ 20. Paguei ali mesmo e garanti minha permanência na expedição. Naquele momento eu já era motivo de risos por causa do meu completo despreparo. Eu contaria ainda muitas vezes com a solidariedade dos meus companheiros de viagem.

Ao longo dos dias, consegui emprestado remédios (para azia e bolhas), capa de chuva, chinelos, cantil, cloro para colocar na água e fita adesiva. Seu Álvaro, 57 anos, que fazia o trekking com a filha Aline, até ofereceu-me roupas que estavam sobrando e ele não usaria. Mas não precisei.

No segundo dia, caminhamos 8,5 km até o acampamento na base da montanha. O caminho, embora mais curto, foi bem mais árduo e suado do que no dia anterior, por ser todo em subida. Espantei-me pela primeira vez com a força de Dona Ledi Marchi, às vésperas de completar 72 anos. A gaúcha, de Santa Maria, seguia firme, com seu MP3 nos ouvidos.

O acampamento base estava bem cheio, era semana santa e havia, no mínimo, uma centena de barracas armadas. Era meio dia e, até ficar pronto o almoço, ficamos de papo, meio bobos tendo o paredão de rocha do Monte Roraima bem de frente aos nossos olhos. É incrível como a montanha ergue-se verticalmente do chão. As nuvens teimam em prender-se ao topo, como se fossem um imenso chapéu branco. A névoa é um fenômeno constante, que esconde e exibe os paredões todo o tempo. Servem para aumentar o clima de mistério. “É como entrar no mundo do Jurassic Park”, disse o guia Francisco enquanto preparava o almoço. E novamente me vinha a mente as histórias de dinossauros que habitam o platô do Monte Roraima.

O Ataque ao Cume

No dia seguinte, o terceiro da viagem, acordamos cedo e às sete já deixamos o acampamento rumo ao topo: outros 8,5 km de subida íngreme, quase todo em pedras. A guia Ana avisou-nos que este seria o dia mais pesado de todos, e foi. Andamos cerca de uma hora, em alguns trechos apoiando com as mãos para poder subir o terreno escarpado, até encostar no paredão do Roraima. Alguns colocaram as mãos na rocha e ficaram um tempo ali em prece. Desse ponto em diante, andamos por um caminho de rochas em sobe e desce até o topo, passando por um trecho conhecido como Paço das Lágrimas.

paço das lágrimas monte roraima

Dona Ledi dessa vez ficou para trás mas foi acompanhada por Tirso, chefe dos carregadores, em cada passo. No caminho a garoa apertou, a chuva no alto do Roraima é comum e me preocupava manter a mochila e o saco de dormir secos. Estavam protegidos apenas com sacos de lixo que consegui emprestado, enquanto todos tinham capas de lona adequadas para trekkings. Minha bota encharcou e eu teria que passar os próximos dias com os pés molhados o tempo todo, já que é impossível secar qualquer coisa com tanta umidade que existe no alto da montanha.

Ao chegar no topo, um primeiro vislumbre da paisagem: chão rochoso com pedras enormes em formatos curiosos e plantas baixas que parecem compor um jardim criado por paisagista profissional, entre elas muitas bromélias e pequenas orquídeas.

topo monte roraima

bromelia endêmica no Monte Roraima

Bromélia Endêmica

Cerca de 60% das espécies de plantas do Monte Roraima são endêmicas, só existem ali naquele ecossistema frio e espantosamente úmido. Mas naquele momento fotografar estava impossível com a chuva. E eu estava muito cansado, apenas queria sair daquela intempérie. Francisco e Ana então tomaram a frente e nos conduziram, em cerca de uma hora, até o acampamento: uma caverna onde faríamos nosso primeiro pernoite no platô do Roraima, conhecido como “Hotel Guachero”.

Os carregadores já haviam chegado com as bagagens e estavam montando as barracas. Tomei um banho no riacho que corria ao lado da caverna e vesti, finalmente, uma roupa seca. Em certo momento, ao caminhar pela caverna, tropecei numa pedra e deixei cair minha lanterna, que foi-se por uma greta. “Sempre é possível piorar”, pensei. Passei a usar o monitor da câmera fotográfica para iluminar o interior da barraca. Mas não poderia usar esse recurso exageradamente para não consumir todo o estoque de baterias, caso contrário ficaria impossibilitado de fotografar.

As perguntas

Novamente não consegui dormir à noite, perdido em pensamentos, incomodado com o chão duro. Fez muito frio naquela madrugada e tive que vestir quase toda minha roupa de inverno: jaqueta, segunda pele, duas calças e duas meias. Fiquei aquecido e, por um instante, feliz apenas por estar seco e quente.
No dia seguinte, minha preocupação com a falta de roupa seca aumentou. Para aliviar o peso da bagagem acabei levando pouca roupa, tinham apenas mais três camisetas limpas e um shorts. Não poderia usar as duas calças durante as caminhadas, pois eram minha garantia de noites aquecidas e ainda faltavam mais cinco dias de viagem. Passei a desejar o fim da expedição e a contar as horas para voltar pra casa. A falta de equipamento adequado para enfrentar um trekking de montanha estava eliminando qualquer chance de curtição, distraia-me apenas em momentos de conversas nos acampamentos ou fotografando durante as caminhadas.

fotografando monte roraima

trilha monte roraima
Por conta dos perrengues, minha pauta da reportagem mudara. Ao invés de escrever sobre o Monte Roraima, fiquei interessado em descobrir porque as pessoas encaram tantos desconfortos numa viagem assim. Qual seria, afinal, o prazer do montanhismo? Qual a graça de caminhar 15km por dia em subidas e pedras, esgueirando-se em gretas, carregando peso, enfrentando o frio e a chuva, com o corpo dolorido, dormindo no chão duro, arriscando-se a quedas e entorses? Por que aquelas pessoas, gente comum, funcionários públicos, profissionais liberais da cidade grande, se metiam numa montanha batendo de frente com todo tipo de adversidade? Por que gastam um dinheirão para atravessar o Brasil e se enfiar num típico programa de índio como aquele? Uma floresta de interrogações surgiu na minha mente.

As primeiras respostas

Às sete da manhã seguimos para outro ponto do platô, o Hotel Coatí. Hotel é como eles chamam por lá as cavernas que permitem montar acampamento, ficava a 14 km de distância. O clima colaborou e a chuva, finalmente deu uma trégua. Passei a admirar melhor o topo do Monte Roraima: todo em pedra, com plantas exóticas, algumas delas insetívoras. Os jardins são belíssimos, nem Burle Marx em dia inspirado conseguiria fazer algo parecido até porque não existe nada parecido no mundo inteiro. O microclima do Roraima é único e sustenta uma flora muito original e como há pouquíssimos insetos para predá-las, as plantas permanecem intactas, sem folhas carcomidas ou podres. Francisco seguia apontando para as flores e plantas exóticas, sabe de cor o nome popular e científico de quase todas,
durante todo o percurso, uma bruma acompanhou-nos. A névoa espessa ora encobria toda a vista ora exibia as formações rochosas. Comecei a relaxar e a fotografar mais intensamente aqueles cenários fantásticos, em certo ponto, chegamos a um canion de pedra onde havia um lago para banho. Um minuto depois, surgiu outro canion cujo chão é coberto de cristais de quartzo, daí o nome do lugar: Vale dos Cristais.

vale dos cristais monte roraima

vale dos cristais

Chegamos ao acampamento Coatí por volta das duas da tarde. A caverna é belíssima, com piso plano de areia, bastante espaço para armar as barracas e um jardim interno. “É o cinco estrelas do Roraima”, disse Francisco.

caverna hotel coati monte roraima

caverna hotel coati monte roraima
Dona Ledi começou a dar sinais de cansaço e atocaiou-se na barraca para descansar as pernas por um longo período logo após o almoço. Desci então para tomar banho num laguinho próximo embaixo de um vento congelante. A chuva apareceu outra vez e nos obrigou à prosa com chá. Sentia-me exausto, mas aliviado. Ficaríamos duas noites no “Hotel Coatí”. Não precisaria carregar a mochila no dia seguinte. Faríamos apenas um passeio “bate-e-volta” curto para o Lago Gladys.
Esses momentos de acampamento eram bem tranquilos. Após a caminhada, o almoço logo era servido (geralmente uma massa ou arroz com feijão, carne e salada).

trilha monte roraima

cozinha improvisada na trilha

Esperávamos os carregadores armar as barracas para logo ajeitar nossas bagagens e tomar banho. Depois era bater papo e fazer um carteado para passar um tempo. Era uma pausa importante para relaxar as pernas. Às oito da noite todos já estavam recolhidos, e pouco tempo depois já se ouvia a sinfonia de roncos ecoando no interior da caverna. Eu tive a sorte de ficar em uma barraca individual já que o Sr. Pedro, de Rio Claro-SP, pagou um extra para ter uma barraca só pra ele, de forma que os homens ficaram em número ímpar e eu ganhei uma barraca só pra mim.

No quinto dia, Ana nos acordou às 4h30 da manhã para ver o nascer do sol no mirante a duzentos metros do acampamento. O sol estava prestes a surgir no horizonte quando chegamos à borda do precipício. O céu estava limpo e lá embaixo, sobre a planície um colchão de nuvens. Foi o amanhecer mais lindo que já vi. Realmente especial.

amanhecer no mirante do coati monte roraima

Mirante do Coati

Os carregadores também estavam presentes, e todo o grupo, emocionado, juntou-se para uma oração. Fiquei embasbacado por estar no topo daquela montanha, acima das nuvens. “É um espetáculo, sempre me impressiona, não importa quantas vezes eu veja”, confidenciou Manuel Lorenzo, um dos carregadores. “Tá vendo fotógrafo? Uma cena assim não se vê lá na Vila Mariana, em São Paulo”, brincou meu amigo Álvaro. No alto daquele mirante, sob as primeiras luzes da manhã, houve paz e felicidade. E eu começava a entender o prazer do montanhismo. Era como se aquele lugar fosse o lugar mais seguro do mundo, um santuário, livre de maldades. Parecia que todos os perrengues que vivemos até chegar ali tinha valido a pena, o frio, a chuva, as noites mal dormidas, as pernas cansadas…tudo era parte de um rito de passagem. É a maneira que a montanha encontrou para preparar o visitante, eliminar vaidade e necessidades tolas, para entender sua grandeza. Somos pequenos e frágeis diante do eterno, eu agradeci, finalmente, por estar ali. Ainda embriagados com o show do amanhecer, tomamos café da manhã e seguimos para o Lago Gladys: 6km seguindo pela margem do Rio Cotingo, de águas avermelhadas. Não carregamos peso pois as mochilas ficaram no acampamento. Para ficar ainda mais livre, deixei até o tripé e saí apenas com a câmeras e as lentes.

rio cotingo monte roraima

Lago Gladys

Dona Ledi ficava sempre para trás do grupo nas caminhadas. Seguia em ritmo mais lento, mas era sempre acompanhada por um dos guias. Eu gostava de andar com ela, pois tinha tempo para fotografar com calma sem me desvencilhar muito. Dona Ledi não reclamava, mesmo com as pernas já cansadas. Era pura simpatia. Passei a nutrir uma profunda admiração por ela.
Em cerca de uma hora e meia, chegamos ao Lago Gladys. O lago é todo cercado por um paredão de rocha de forma que o vemos de cima.

lago gladys monte roraima

Tive a impressão que os dinossauros do professor Challenger, do livro “O Mundo Perdido”, apareceriam ali a qualquer momento para beber água. O nome do lago, aliás foi dado no livro pelo protagonista da história, o jornalista Edward Malone, em homenagem à sua namorada, Gladys. O lago foi o ponto mais longe que alcançamos no Monte Roraima. Dali em diante seria apenas retorno.

O Fosso

Já estávamos no sexto dia de viagem. Ana nos acordou novamente às 4h30 para ver o nascer do sol, era a oportunidade de repetir a linda experiência do dia anterior. Antecipei-me para chegar antes, mas no caminho escorreguei e voltei a sentir uma antiga lesão no ombro esquerdo que custara a desaparecer. Em compensação, o céu estava limpo novamente e fomos brindados com outro amanhecer inesquecível.
Partimos depois do café da manhã, de volta a caverna do Guachero, caminhando sob um belo dia de sol, muito mais agradável do que com a chuva persistente dos dias anteriores. No trajeto, paramos no Ponto Triplo, o marco de pedra que limita Brasil, Venezuela e Guiana, fincado na expedição do Marechal Rondon, em 1931. É um clássico entre montanhistas. A galera entrou em êxtase. todos fizeram fotos, alguns com bandeiras do Brasil e de clubes de futebol.

trilha ponto triplo monte roraima

Dali partimos rumo ao Fosso, uma das grandes atrações da montanha. Trata-se de uma cachoeira que cai num buraco grande e redondo formando um lago dentro. Dito assim parece até simples e banal. Mas o Monte Roraima não é dado às banalidades, é preciso considerar que o tal lago é parcialmente subterrâneo e para acessá-lo é preciso entrar em uma caverna através de uma greta no solo. Numa só palavra: sensacional!

fosso monte roraima

fosso monte roraima

fosso monte roraima

Chegamos a caverna no início da tarde. Aproveitei o sol e estendi as roupas e as botas numa pedra para secar, em uma hora estava tudo seco. Finalmente tive as botas secas após quatro dias usando-as molhadas.
Ao lado da pedra, em um buraco percebi um monte de sacos de lixo jogados. Era o lixão do acampamento. Preocupou-me então a conservação daquele ecossistema e a contaminação da água da montanha, que é uma enorme nascente de água potável. A agência Roraima Adventures orientou-nos a usar comprimidos de cloro para colocar na água dos cantis meia hora antes de beber, o que não adotei de início e ali, ao ver as sacos de lixo no buraco, percebi a razão de tal medida. O manuseio de lixo e dejetos parece não ter sido resolvido no Roraima, e sem o controle de visitação a situação parece ser preocupante. Como era feriado prolongado, os acampamentos estavam cheios no platô e do mirante do Guachero vimos o acampamento base, lá embaixo, tomado por barracas que pareciam formar um pequeno vilarejo. Em uma estimativa conservadora, seria possível afirmar que, pelo menos, 500 pessoas subiram a montanha naquele final de semana.

mirante do guachero monte roraima

Tanto que o Mirante do Guachero, onde acabávamos de voltar para iniciar nosso retorno, estava tomado de turistas vindos de outras cavernas, ou “hotéis”. Mas não pude reclamar disso, um desses turistas acabou me ajudando um bocado. Ao tentar tirar uma fotografia de algumas pessoas deitadas na beira do penhasco observando a vista, o filtro da minha lente se desprendeu, quicou no chão, rolou caprichosamente na direção do despenhadeiro e quando iniciou a queda livre foi agarrado por uma garota que esticou o braço para fazer o salvamento, poupando-me de um prejuízo de R$ 250 na compra de um novo filtro. Aliás, o filtro era o polarizador, que considero fundamental para as fotos de paisagens e que ainda seria muito útil nas imagens que captei horas depois ao final do dia.

mirante do guachero monte roraima

Escolhi um ponto isolado do penhasco que me oferecia uma vista desimpedida do paredão rochoso e ali fiquei por quase duas horas, até que um facho de sol escapasse por entre as nuvens e ajudasse a compor uma das melhores fotos que fiz durante a viagem. Do ponto de vista fotográfico, eu tinha, até então, um material bem acima da média de qualquer outra reportagem que fiz nos últimos dez anos trabalhando com jornalismo de viagem e turismo, e eu estava bem mais relaxado por causa disso.

yoga mirante do guachero

yoga mirante no guachero

mirante do guachero

O Retorno

Era hora de voltar. Descer a montanha e tomar o rumo de casa, mas minha missão ainda não tinha acabado. José Marques, 51 anos, o carregador mais gente boa, prometeu guiar-me até a Jacuzzi, um riacho com poços de águas cristalinas, antes de iniciar a descida da montanha. O grupo seguiu na frente, José e eu desviamos por uma trilha de aproximadamente uma hora até a tal “Jacuzzi”. José carregava cerca de 23 quilos nas costas. Caminhava rápido, parando apenas para apontar algumas pedras com formas que lembravam coelho, tartaruga, camelo, jacaré… Após uma hora fotografando os poços da Jacuzzi, o relógio apontou oito horas iniciamos nosso trajeto de retorno.

jacuzzi monte roraima

Em mais uma hora de caminhada atingimos o declive do penhasco, o mesmo pelo qual viemos dias antes, único trecho da montanha onde é possível acessar o platô sem usar cordas. Fazia um belo dia de sol, as pedras estavam secas e havia uma bruma bem suave no ar. Não havia chuva, nem frio, nem ansiedade, nem nada, eu estava em paz. Em certo ponto, parei para descansar. Olhei para cima e tive a vista do paredão bem de perto pela última vez, estendi o braço para me despedir e agradeci a montanha. Tinha entendido seu recado. Tive vontade de chorar mas não havia tempo para isso. Queria alcançar novamente o grupo no acampamento base.

A descida foi penosa. Minhas pernas começaram a fraquejar. Elas estavam bem até aquele momento, mas a fadiga apertou. Tomei o primeiro Dorflex para amenizar as dores musculares. Já próximo do acampamento encontrei Dona Ledi na trilha. Tirso, chefe dos carregadores, a acompanhava paciente, de mãos dadas, ainda que exausta, a jovem senhora de 72 anos exibia o mesmo sorriso, as mesmas palavras doces. Ela não aceitou o Dorflex que ofereci. “Não gosto de remédio”, disse. Outras pessoas que passavam por ela na trilha admiravam-se da força de Dona Ledi. Paravam para conversar, tirar foto junto, ela ficava satisfeita com esses encontros e seguia passo-a-passo seu longo caminho. Acompanhei-os por um tempo, depois estiquei o passo, pois minha bagagem parecia pesar cada vez mais.

O grupo já havia saído quando cheguei ao acampamento base. Almocei. Distribui Dorflex para os carregadores que ainda descansavam e parti pela estrada rumo ao acampamento do Rio Trek. Não faríamos o pernoite na base, seria o dia de mais distância a ser percorrido, cerca de 20 km (contando meu desvio para ir a Jacuzzi). Por sorte, era só descida. Vez ou outra, eu parava para olhar para trás, apenas para ter mais um vislumbre da montanha, com seu chapéu de nuvens e sua bruma, cada vez mais distante. No caminho, as solas das minhas botas começaram a soltar e eu as prendi com fita adesiva que consegui emprestado. Funcionou bem, mas com o solado solto as bolhas começaram a aparecer e incomodar.

acampamento rio trek

acampamento rio trek

Por volta das quatro da tarde, alcancei o Rio Kukenan, a apenas 3 km do acampamento no qual faríamos o último pernoite da expedição. Larguei a mochila e fui tomar banho na água gelada, acho que foi o melhor banho da viagem. Depois fiquei à margem do rio até o final do dia para fotografar a montanha e o rio com a luz do entardecer. Todos já tinham ido embora. Começou a anoitecer, a lua cheia surgiu maravilhosa, bem ao lado do Monte Roraima. Eu resolvi permanecer ali por mais tempo, para fazer uma fotografia noturna, com o céu estrelado. Mas pouco antes de escurecer completamente, Tirso chegou com mais três carregadores. Era uma equipe de resgate. Ficaram preocupados com minha demora e foram me buscar. “Essas pedras ficam infestadas de cobra cascavel à noite”, contou Tirso. Não me animei a ficar ali nem mais um minuto mas meus amigos não tinham pressa alguma, nem pareciam contrariados. Riam e tiravam fotos da lua cheia com os telefones celulares.

rio kukenam monte roraima

rio kukenam

No acampamento, o gerador estava ligado, e alguns nativos vendiam cerveja gelada nos barzinhos adaptados em casebres de pau-a-pique. Paguei bebidas para a ”equipe de resgate” e logo fui dormir. Foi a noite mais bem dormida de toda a viagem. Ás seis da manhã iniciamos a marcha final até Paraitepuy. As bolhas estavam maiores e mais doloridas, tornando mais longo e duro o caminho de volta. Com o sol forte, e as pernas bambas, parei diversas vezes para aliviar o peso das costas por uns minutos, cantei Raul Seixas para passar o tempo. Todos pareciam cansados, caminhavam quietos, em ritmo lento, loucos para chegar. Eu estava visivelmente mais magro e com o rosto ardendo de sol.

proteção para trilha monte roraima

proteção para trilha monte roraima

Por que as pessoas fazem montanhismo? Talvez porque a vida precise de alguns momentos de aventura assim. De algo que nos faça perder o equilíbrio, apenas para que possamos nos reequilibrar novamente, engrandecidos. É provável que no conforto de casa, deitado no sofá, eu relembre muitas vezes desses momentos de aventura no Roraima. Foi uma quebra fenomenal de rotina. Andamos feito loucos, no sol e na chuva, dormimos em barracas dentro de cavernas, acordamos às quatro da manhã, ficamos privados de televisão e comunicação por oito dias.

A longa caminhada testa nossa força, física e mental, exige uma garra e uma persistência que não afloram no dia-a-dia. Muitas adversidades surgem pelo caminho, mas não se pode desistir no meio da trilha, é preciso continuar. Por sorte, também há belezas e alegrias no percurso. Então você decide: vai reclamar ou curtir a viagem? Vai ser feliz ou triste? Basta escolher, como fez Dona Ledi, que em nenhum momento perdeu o bom-humor. Dona Ledi já conhecia a mensagem da montanha. É andarilha veterana, já percorreu o Caminho de Santiago e as trilhas de Torres del Paine, no Chile, e El Chaltén, na Patagônia – Argentina. Mesmo assim garantiu que de todas as viagens que fez o Monte Roraima foi a que mais a marcou. Existe mesmo algo de especial nessa montanha em forma de mesa.

trilha monte roraima

Eu fui o último a chegar em Paraitepuy, o início e o fim de nosso trekking. Estava exausto. Ao avistar as casas do povoado, lembrei novamente do livro “O Mundo Perdido” e das palavras que encerram o penúltimo capítulo, pronunciadas pelo protagonista-narrador, o jornalista Edward Malone, fictício colega de profissão, que, assim como eu, escrevia um relato dia-a-dia das coisas que vivenciava na montanha. “Nossos olhos viram maravilhas sem igual e nossos espíritos se purificaram pelas provações. Sem dúvida, somos outros homens, transformados pela esplêndida experiência que acabamos de viver”.

Nota do autor: Não faça com este autor e vá preparado para o trekking, com roupa de montanhismo adequado, capas de chuvas apropriadas para trekking, calçados amaciados para evitar bolhas e medicamentos. Não deixe, de maneira alguma, de contratar carregador.

Mais informações:

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Sobre o autor:

Tales Azzi, é paulista, jornalista e fotógrafo profissional desde 1999. Trabalha há onze anos como repórter contratado da revista Viaje Mais, da Editora Europa, na qual já publicou cerca de 180 reportagens realizadas no Brasil e no exterior.”