Ao fim do mundo e além! [parte I]

Há uns meses atrás, eu e um amigo decidimos e fomos fazer uma viagem saindo de Curitiba até o fim do mundo – Ushuaia, a cidade mais austral do mundo localizada na Argentina – sem nenhum centavo no bolso. Quando digo que decidimos e fomos é porque literalmente fizemos assim, sem praticamente nenhum planejamento. Como memória não é uma qualidade muito marcante em mim, decidi colocar em palavras uma longa história cheia de detalhes que eu jamais gostaria de esquecer enquanto tudo isso ainda está fresco na minha cabeça. Foram 30 dias imersos na mais pura aventura, portanto vou dividir essa viagem em alguns capítulos com vocês – vem comigo!

Como tudo começou:

No espaço de duas ou três semanas (não mais que isso), tentamos moldar nossa viagem algumas vezes: a ideia a princípio era ir de carona e gastando o mínimo possível, mas levaríamos dinheiro e seria um mochilão meio normal só que de carona. Logo em seguida, surgiu a oportunidade de fazer a viagem em uma kombi com um conhecido nosso que tinha acabado de comprar uma daquelas belezinhas, ele queria viajar pra qualquer lugar e topou se juntar ao nosso destino. Nós dois somos fotógrafos e a ideia de viajar por estradas remotas dentro de uma kombi soou deslumbrantemente fotogênica, então abraçamos a ideia imediatamente, com o porém de que precisaríamos de um dinheiro que não tínhamos.
Enquanto pensávamos em mil maneiras de conseguir levantar a grana, começamos a pensar também nos riscos da viagem em si, em um veículo antigo com 3 pessoas sem absolutamente nenhuma experiência ou conhecimento sobre este tipo de automóvel em uma região bastante remota de um país estrangeiro. Finalmente realizamos que essa não seria a ideia mais sensata do mundo, então voltamos para o plano das caronas, mas ainda tínhamos a questão do dinheiro. Aí pensamos: por que não imprimimos diversas fotos de viagens antigas como cartões postais e levamos para vender ou escambar e este será nosso “dinheiro” durante a viagem?! Sim??? OK, temos um plano – vamos!

Os próximos detalhes giravam em torno do que iríamos precisar, pois não tínhamos muita roupa de frio nem tampouco dinheiro para comprar. Como não somos as pessoas mais agilizadas do mundo, provavelmente ainda levaríamos algumas semanas tentando arrumar tudo, mas o destino parecia estar nos apurando: o Brian, meu amigo, alugou o apartamento dele para dois caras de Passo Fundo, uma pequena cidade no Rio Grande do Sul, e pra nossa sorte (e pressa!), os caras estavam voltando naquela mesma semana de carro e poderiam ser nossa primeira carona. Ainda não tínhamos nada pronto, mas não dava pra perder a oportunidade: seriam quase 600km de viagem que teríamos que fazer entre muitos caminhões e dificuldades na estrada.

Foi um corre-corre:
– Prima, me empresta teu colete?
– Alguém no facebook tem roupas de neve pra emprestar?
– Brian, fuce no armário da tua irmã pra ver se acha uns agasalhos!
– Precisamos comprar meias!
– Precisamos de uma barraca!
– Mãe, consegue enviar pra Curitiba aquele meu tênis de trekking que tá por aí?
– Precisamos imprimir os cartões!
– Méldéls, já é amanhã, precisamos ir!!!

E fomos. Conseguimos quase tudo emprestado, só faltou barraca e isolante térmico – mais pra frente vocês vão entender a relevância desses dois pequenos-grandes detalhes.

de carona para o ushuaia

de carona até o ushuaia

A primeira carona com os gaúchos foi moleza e regada à chimarrão. Logo que entramos no carro empolgados com o que viria pela frente, o Brian me perguntou se eu tinha falado para os meus pais e se eles estavam tranquilos com o tipo da viagem – antes de alguém pensar que eu sou cruel, vou explicar: minha família é um pouco tradicional, no entanto, meus pais aceitam a maioria das minhas aventuras, mas são pais, e eu entendo que isso seria meio “too much” pra eles.
Eu respondi ao Brian que tinha falado mais ou menos e que era melhor eles ficarem sabendo depois para não ficarem tão preocupados, sofrendo por antecipação.

Falou mais ou menos??? Tá louca??? Eles vão ficar sabendo nas primeiras fotos que postarmos!

E realmente não demorou nem 24 horas pra isso acontecer. Passo Fundo é uma cidade pequena e as notícias, como vocês podem imaginar, correm muito rápido!
Chegamos em Passo Fundo de madrugada, dormimos no chão da cozinha de um dos meninos que nos deu carona e logo cedo partimos para a beira da estrada, na frente da faculdade mais importante da cidade. Tínhamos postado nas nossas redes sociais que estávamos na cidade pedindo carona para alguma cidade ao sul, sentido Argentina, na esperança de encontrar alguém da região disposto a nos hospedar nas próximas paradas. Não apareceu ninguém disponível para nos receber, mas apareceu um estudante de jornalismo querendo nos entrevistar para um site local – e lá se foi a história toda exibida publicamente. Pronto, suficiente pra todo mundo nos taxar de loucos! Neste momento, recebi várias mensagens extremamente pessimistas enfatizando todas as desgraças que poderiam acontecer, mas recebi outras inúmeras mensagens super motivadoras, que são as que realmente importam pra mim!

Pausa para dica importante: se você tem um amigo ou familiar se jogando em uma aventura que você considera a maior loucura – acredite – ele não quer ouvir você falando que ele pode morrer no meio do caminho e nem vai deixar de ir se você falar isso, então coloque aquele sorrisinho falso no rosto, diga que vai dar tudo certo e mande as melhores energias! 🙂

de carona até o ushuaia

de carona até o ushuaia

​Foi sorte? Loucura? Perigo? Eu sei que muitos acham tudo isso, mas é como dizer que não gosta de um sabor sem nunca o ter provado. Este é o tipo de viagem em que um único dia pode te proporcionar experiências que valeriam por uma vida inteira.

A velha expressão “há certas coisas que o dinheiro não compra” nunca fez tanto sentido.

Quando anunciamos que a viagem seria feita toda sem dinheiro, nossos queridíssimos colegas de trabalho aqui do Mochilando ofereceram para bancar a nossa volta de avião com milhas (nada de patrocínio aqui, foi pura camaradagem mesmo!), assim poderíamos curtir mais tempo cada lugar sem preocupação com o retorno. Claro que aceitamos, afinal, o inverno se aproximava, já estaria frio demais se tivéssemos que voltar de carona e as estradas ficariam perigosas e com ainda menos movimento.

Entrevista dada, família preocupada – seguimos viagem. Nós queríamos chegar até São Borja e demorou muito pra nossa primeira carona parar (algumas horas, acho que a mais demorada de toda a viagem mesmo sendo um lugar de bastante movimento), provavelmente porque a gente tinha acabado de tomar banho e era o primeiro dia com o dedão pra cima. Acho que não estávamos muito convincentes ou suficientemente sujos na beira da estrada.

de carona até o ushuaia

Quem finalmente parou foi o Seu Luis Carlos, mais conhecido como “Negrão”, um paulista que é caminhoneiro há mais de 30 anos e nunca tinha dado carona na vida dele por questões de segurança. Pra nossa sorte, ele foi com a nossa cara e resolveu parar pra nos levar até Ijuí com o Jonas (menino da foto acima), estudante em Passo Fundo que faz esse trajeto de carona toda semana.

Depois do Negrão, pegamos muitas caronas, de trevo em trevo, de posto em posto, e conseguimos viajar até nossa meta do dia: São Borja, a famosa cidade dos presidentes. O último caminhoneiro que nos levou até lá era daqueles paizões que nos deu até um ticket pra banho no posto onde ele sugeriu que dormíssemos.

de carona até o ushuaia

Ahh, claro! Esqueci de comentar que neste tempo todo estávamos comendo com a venda ou troca dos cartões postais. Foi bem difícil nas primeiras vezes até quebrar o gelo, mas depois foi ficando mais fácil, a cara de pau foi aumentando gradativamente e a compaixão das pessoas também. 🙂

Mas voltando ao posto… como o caminhoneiro havia dito, era realmente o mais movimentado da região com segurança 24 horas e incontáveis caminhões estacionados prontos pra passar a noite alí e sair cedo pela manhã, assim como nós. Com tanto fluxo, o ambiente era perfeito pra amanhecer com uma ótima carona para o próximo destino, então alí ficamos. No entanto, tinha um problema: não tínhamos barraca pra acampar, lembra?! E dormir ao relento era pedir para ser carregada por mosquitos: a noite não seria das mais fáceis. Aquele ticket pro banho que ganhamos nem foi usado porque o lugar onde íamos dormir era tão sujo que não faria a menor diferença com ou sem banho. Às 8 da noite estávamos imundos pedindo pra cozinhar um miojo no restaurante do posto e esperando o fim do expediente dos frentistas, que só acabava à 1 da manhã, pois eles liberaram a casinha de descanso deles pra dormirmos longe dos pernilongos – tinha até um ventiladorzão (chique!). Todos os funcionários do posto nos receberam da melhor maneira possível, vendemos algumas fotos, ganhamos frutas para o café da manhã (olhe as frutas alí em cima da nossa placa de carona improvisada em uma caixa de pizza) e eles nos ajudaram a ajeitar uns papelões para dormir.

de carona até o ushuaia

O tempo passou, já era quase meia-noite e estávamos alí há algumas horas esperando a salinha ser liberada, quando o Brian recebeu mensagem de uma pessoa dizendo que nos acompanhava no Instagram, era de São Borja e que daria uma jeito de nos buscar no posto.

Mas como assim? Que pessoa? É uma menina?

Essas perguntas só duraram o tempo de correr, pegar nossas mochilas na salinha e ir pra loja de conveniências esperar. Em poucos minutos, desce de um carro o sorriso mais acolhedor que poderíamos esperar e vem logo se apresentando: “eu sou a Larissa e essa é minha mãe Dona Aparecida, que prazer conhecer vocês!”. Entramos no carro, demos uma voltinha por São Borja e fomos pra linda casa da família, onde Seu Gladimir, o pai da Larissa, nos esperava de sorriso aberto com uma baita cama pra dormirmos, toalhas cheirosas, banho quentinho e muito carinho. Ahh, e como se não bastasse, ainda ganhamos uma barraca novinha e uma pulseira de olho de tigre pra nossa proteção dalí pra frente.

de carona até ushuaia

Recepção em são borja

Claro que nossa ideia de sair cedinho para o próximo destino mudou, afinal, viajar sem planejamento é estar aberto para novas experiências o tempo todo. Acordamos com um caloroso “bom dia, já tem café na mesa!”, nos deliciamos com um café da manhã digno de hotel 5 estrelas, fomos passear na fazenda da família e nos despedimos com os melhores desejos de um bom caminho em um almoço daqueles de tirar a barriga da miséria por um bom tempo.

Talvez a família da Larissa não tenha feito nada demais, mas eles confirmaram aquilo que tinha nos levado até alí: você pode fazer o que esperam que você faça, ou pode simplesmente fazer diferente. Viajar sem dinheiro estava sendo desafiador em muitos níveis, mas por outro lado estava me devolvendo a esperança de um mundo mais generoso e sem preconceitos. Como diria Amyr Klink: “é preciso conhecer o frio para desfrutar o calor, e o oposto.” São pequenos gestos que fazem toda diferença em uma viagem como esta e eu com certeza lembrarei pra sempre com muito carinho de cada detalhe destas poucas horas de convivência com aquela família tão especial, mas era hora de se despedir e seguir viagem.

de carona até o ushuaia

Próximo destino: Uruguaiana

Nossa carona não demorou muito pra chegar, dessa vez um carro com duas mulheres relativamente tradicionais dentro. A motorista veio logo dizendo que jamais pararia o carro pra dois estranhos, mas que estava indo para Uruguaiana e alguma coisa disse que ela deveria parar pra nós – bendita coisa que a fez parar! 🙂 Patricia, o nome dela, minha xará.
Ela nos deixou na fronteira, já faltava pouco para anoitecer e não é permitido cruzar a ponte caminhando, então um policial argentino que estava encerrando o turno e voltando para casa, nos levou para o outro lado.

Nós estávamos indo muito bem sem dinheiro até então, mas eu sabia que ficaria cada vez mais difícil e, se havia um momento para desistir da ideia, era alí naquela ponte, antes de entrar na Argentina.
Explico: eu tinha um cartão de débito nacional com o qual pagamos os cartões postais antes de sair. A ideia nem era ter ele por precaução, mas na correria da saída ele acabou vindo junto na bolsa e, de alguma forma, aquilo estava me deixando um pouco mais tranquila. No entanto, não tínhamos absolutamente nada internacional que pudesse nos ajudar em caso de emergência, mas nem deu tempo de pensar; quando nos demos por conta, já estávamos dentro da Argentina, em Paso de Los Libres, vendendo postais na fila da imigração.

Deu tudo certo na fronteira e o policial até nos ofereceu o chão da sala dele pra dormirmos, mas estávamos empolgados pra estrear a barraca que ganhamos e preferimos ficar no primeiro posto da cidade, onde pernoitam centenas de caminhões e parecia o lugar ideal para começar o dia seguinte com uma ótima carona. Se observarem aquela caixinha pra fora da barraca, era pra deixar o tênis catinguento do Brian de castigo porque depois dessa andança toda… não tava fácil, não!

de carona até o ushuaia

Ahh! Até agora você já deve ter se perguntado várias vezes se eu e o Brian somos um casal. Não, somos como irmãos, mas é claro que quando eu sentia alguma malícia por parte de alguém dando carona, era padrão dizermos que éramos recém casados, mas não passamos por nenhum momento em que isso foi realmente necessário.

Agora deixo vocês curiosos com o próximo post/capítulo dessa história porque a viagem ainda nem começou! 🙂