Eram 20:30 da noite quando sai do apartamento em que estou ficando esses dias em Paris, apartamento alugado por um amigo estudante que me deixou as chaves e foi fazer uma viagem de fim de semana.
Sai de casa para ir fotografar como de costume quando estou viajando, Paris eu considero a cidade mais bonita e charmosa do mundo, sou fascinado e não me canso de caminhar pela cidade não importa quantas vezes já tenha vindo pra cá.
Fotografei Pont Neuf e logo depois o Louvre, comecei a receber mensagens de texto no celular sendo alertado sobre o acontecido, sem internet procurei um lugar para me conectar e poder saber melhor o que estava acontecendo.
Optei por voltar pra casa mesmo sabendo que algo de ruim acontecia por lá, mas não tinha noção do tamanho da tragédia. Carros de policia passavam constantemente junto com ambulâncias, e eu comecei a andar em direção de casa. Peguei o metrô em Hôtel de Ville, e optei por descer antes, para me sentir mais seguro e tentar entender melhor o que estava acontecendo. Acabou que a estação Oberkampf onde eu teria que ir já estava fechada e acabei sem opção a não ser descer uma antes. Desci em Richard-Lenoir, linha 5 do metrô.

Saí da estação e caminhei em direção ao apartamento, mas um bloqueio de policiais já fechavam a rua, nessa barragem já haviam filmadoras, repórteres, pedestres e curiosos. Havia inclusive um cidadão fazendo uma transmissão ao vivo pelo Periscope que me chamou muito a atenção, pois eu já sentia uma tensão grande de momento. Tentei explicar ao policial que morava a poucos metros dali e precisava chegar em casa, ele me mandou embora dizendo que por ali eu não passaria tão cedo que procurasse outro caminho.
Fui atrás de um outro caminho, não conheço a região mas procurei uma outra rua que me deixasse chegar mais perto de casa mas já meio conformado que não conseguiria, abordei um homem que andava na mesma direção, perguntando pra ele o que realmente estava acontecendo, ele disse que era trágico, que mais de 30 pessoas foram mortas na casa de show Bataclan, uma casa que fica literalmente ao lado do apartamento em que eu queria chegar. O apartamento, fica na Boulevard Voltaire 46, ao lado da Bataclan que fica na mesma rua no número 50. Sabia que seria uma missão quase impossível voltar pra casa. O homem me desejou boa sorte e disse para eu tomar cuidado na rua, pois o terrorismo seguia acontecendo ali na rua de trás.

Tentei dois outro acessos mas ambos estavam bloqueados, e ali fiquei por um tempo, a rua terminava em outra rua que estava com ambos os lados bloqueados, o que me deixou parado ali por um tempo. Havia um bar de esquina com pessoas dentro mas portas fechadas, e de pé ao lado de fora, podia acompanhar pela janela a televisão que me mostrava e fez entender o que realmente estava acontecendo. Nervos a flor da pele, uma discussão começou a acontecer do lado de fora, um conflito desnecessário entre um grupo de três rapazes com um senhor estrangeiro que estava ali tentando fazer seu trabalho, era algum tipo de repórter, isso quando tiros começaram e pessoas começaram a correr assustadas e muitos vindo em minha direção. Eu corri também.
Sem muito saber pra onde ir pensei em pular uma grade baixa de um prédio, mas achei melhor ir parar mais longe de onde estava, foi ai quando o medo me pegou realmente. A tensão do terrorismo, de ver o medo espalhado geral, e de estar fora na rua junto com outras pessoas numa sensação de indefesa ficou muito pior quando me vi correndo por uma rua sozinho, no escuro, em direção a pegadas de sangue, que quanto mais eu corria, mais frescas pareciam ser. Isso me deixou completamente assustado e logo corri para uma outra direção. Acabei passando por dois bares onde pessoas estavam fechadas do lado de dentro acompanhando tudo pela televisão, até que achei um hotel onde entrei disfarçadamente e por ali fiquei em frente uma televisão tentando me acalmar da adrenalina e pânico que me fizeram chegar lá. Por ali fiquei acompanhando as notícias, até que umas duas da manhã quando estava criando coragem pra tentar chegar em casa de novo fui perguntado educadamente se me hospedava ali, e logo convidado a me retirar. Um ato nada legal do funcionário devido as circunstâncias.

Tentei fazer o caminho de volta, consegui chegar numa barreira policial, e toda barreira me pedia para tentar outro caminho e assim foi até que cheguei onde deveria, claro que barrado outra vez, sempre tentando conversar e explicar que morava poucos metros dali, mas com nenhum policial havia conversa, era não e não, um só me respondeu quando disse que seria mais inteligente eu estar dentro de casa como eles mesmos pediam pela televisão do que estar na rua sem ter pra onde ir, ele me respondeu “sim mas ali há terrorismo, bombas e gente morta”.
Nessa ultima barreira em que eu estava havia um rapaz, sem uniforme e nem armas e com ele houve conversa, senti que ele queria me deixar passar, mas simplesmente não podia. Eu agradeci e fiquei ali por uns minutos observando, até que do outro lado da rua vi um grupo de três pessoas conversando com um policial que os liberou, e fui na mesma direção e o policial não me questionou, passei a barreira, estava feliz que chegaria em casa. Eu carregava meu tripé o tempo todo, o que me incomodava pois poderia assustar pessoas com impressão de arma, ou parece uma pessoa da mídia em busca de notícia, a verdade é que não queria parecer nem um, nem outro, mas ali pode ter sido ele que me fez passar logo atrás do grupo.

Achei que estava bem perto de casa, mas estava enganado, achei que estava em um lugar mas estava em outro. Estava perdido e mais uma vez tive que buscar a direção certa, frustrante pois não via a hora de chegar em casa. Continuei procurando a direção certa, e passei a perguntar para pessoas na rua e não policiais, pois um policial que pedi informação me mandou para o lado oposto que eu deveria, e acabei me afastando mais ainda e saindo da barreira que eu acabara de passar.
Encontrei uma estação de metrô, todas possuem um mapa do lado de fora que me ajudou a me localizar. a próxima barreira me direcionou até a praça Republiqué, dizendo que de lá seria o melhor jeito de chegar na rua em que eu queria, confirmei com um grupo de franceses que também tentavam passar essa barreira e dito e feito, da praça encontrei a rua de casa. Nesse caminho me deparei com duas cenas tristes ao extremo, duas cenas que se repetiram: uma mulher ao telefone recebendo a provável trágica notícia da morte de alguém próximo. No meio da madrugada, no meio do caos, elas simplesmente ali caíram num choro incontrolável, com pessoas e policiais se aproximando para dar algum tipo de suporte em ambos os casos.

Já na rua de casa, e também na rua do atentado caminhei firme em direção de casa, ignorei a primeira faixa que fazia uma primeira barragem sem ser abordado ou bloqueado, de repente já estava um quarteirão de casa e do local atingido, ambulâncias prestavam atendimentos, pessoas no chão, cobertores térmicos para todos os lados, vítimas e parentes próximos talvez, se misturavam com centenas de policiais, enfermeiros, e todo tipo de assistência possível. Tentei ir pra casa diretamente, mas os policiais que faziam a barragem ali eram bravos e grossos, explicava que morava a 10 metros dali e pouco se importavam. Me posicionei para sentar ali e logo ele se aproximou mandando eu ir embora. Fiquei ali, plantado na esquina de pé, num estado meio hipnótico acompanhando tudo e todos, sangue estava por todos os lados, era um ambiente de caos controlado, se posso colocar assim. Tinha minha camera na mão, e fotografar é minha maior paixão, mas não tive a mínima vontade de tirar a camera da mala, seriam fotos incríveis que registrariam um pouco o que estou tentando descrever, mas acredito que a energia era tão pesada que não tive forças ou vontade para fazer.

Uns quarenta minutos se passaram e eu estava inconformado e completamente desgastado, estava a poucos metros de casa e tinha que arrumar alguma maneira. Na barreira tinha perguntado quanto tempo ele acha q levaria até que eu pudesse entrar em casa, “muito” foi a resposta que recebi.
Haviam muitos policiais com um uniforme diferente, eram policiais judiciaries, e outros mascarados de alguma força especial, eu pensei que eu teria que encontrar alguém que me ajudasse a passar a barreira, comecei a observar um casal de policial que estavam ali próximos a mim, pareciam ser bonzinhos e achei que nessa hora a sensibilidade feminina também me ajudasse, fui diretamente a ele e pedi ajuda, expliquei a situação e perguntei se ele podia me acompanhar até minha porta de casa, ele super compreensivo me escutou e me acompanhou até a barragem outra vez, disse que eu era morador, e logo pediram meu passaporte e um comprovante que ali era meu endereço, busquei no celular a mensagem que meu amigo dono do apartamento havia me enviado antes de chegar em Paris, era o que eu tinha mas foi o suficiente para que me escoltassem até a porta de casa.

Termino esse relato dizendo que essa sensação de terrorismo e medo é uma experiência horrível, estar na rua próximo a um ambiente de morte, reféns e terroristas é algo que não dá para colocar em palavras, eu não tive contato nenhum diretamente com o que aconteceu, fui apenas um espectador, e isso já foi algo absurdamente intenso. Estou profundamente triste por aqueles que não tiveram a mesma sorte que eu e que de alguma maneira ou outra foram atingidos por esses atos de terrorismo.

Estou no meio da área isolada, cercado pelos policiais, a poucos metros do local atingido e de tantas mortes, o sangue está por todos os lados, e eu não desejo esse terror pra ninguém.